Entrada da Quadra da Portela em Osvaldo Cruz/Madureira
Não, não é ufania, nem tampouco descaso às razões e problemas sócio, econômico, culturais. Sim, existe a violência, sim, exista a corrupção. E existe ainda a pior complacência do poder público em relação aos temas citados, mas continuo afirmando e reafirmando: o Rio de Janeiro continua lindo.
E me refiro mais do que a topografia que caracteriza a cidade, mais do que as extensas praias recheadas de esportes, pessoas bonitas e democracia. Me refiro a um estilo de vida e da ligação tão forte desta cidade com a música.
No feriado que se passou fui viajar ao Rio de Janeiro e fiz uma verdadeira incursão ao samba. De Madureira à Lapa, de escola de samba à roda, do popular ao refinado. E o que vi? Vi um povo que conhece suas raízes, que valoriza o que é de sua terra e que transpõe para a vida a forma brasileira de viver e a musicalidade de um povo. Me refiro mais do que ao pejorativo jeitinho brasileiro e ao ócio desmedido que falsamente caracterizam esta cidade.
Digo da integração deste povo com sua terra, e do sentimento de se sentir parte do que se é construído. Alguém duvida que a auto estima, e se sentir parte da sociedade ajuda a melhorar a vida de qualquer um e do país?
E assim foram minhas caminhadas boêmias pelo Rio de Janeiro, começando no sábado a tarde acompanhando a linda homenagem a Zé Ketti em Madureira, na quadra da Portela. Com presenças importantes de Elton Medeiros, VG da Portela, Monarco, Zé Renato e mais alguns artistas. Na noite a pedida foi ir ao lindo Trapiche Gamboa para ver o Galocantô cantando só sucessos. Bar esta que é o cenário para o programa Samba na Gamboa de Diogo Nogueira.
Domingo o dia foi da preguiça, e esticar as pernas no Arpoador para curar a ressaca, e terminar a tarde tomando uma cervejinha em Ipanema/Leblon. A noite ver um samba de roda na Lapa e dormir mais uma vez inebriado pelo som do samba e pela maresia que ronda aqueles ares.
Segunda para mim foi o melhor dia. Logo após o almoço rumamos para uma das melhores rodas de samba que já frequentei. Repertório sensacional, público amistoso, roda de primeira, compositores, cantores e músicos idem, e por fim as canções entoadas pela população sambística era de emocionar e de tocar a alma. Este samba fica no Andaraí e acontece toda segunda-feira, e conduzida pelo grande Moacyr Luz ganhou o divertido apelido de Samba do Trabalhador, e em plenas segundas-feiras arrasta multidões ao seu entorno.
E na noite da segunda-feira a grande pedida foi ver a nova casa do Cordão da Bola Preta recebendo o show de Moyseis Marques e Teresa Cristina. A casa tem alguns bons pontos a melhorar, como por exemplo o caixa, o banheiro e a entrada, mas o show foi sensacional.
Coloquei algumas fotos no flickr, e podem ser conferidas na lateral direita do blog, e divido com vocês alguns vídeos que fiz nas andanças. Espero que sirva como bom roteiro a quem visitar ao RJ. Mas digo, os roteiros do samba parecem infinitos.
O Rio de Janeiro, definitivamente, continua lindo.
Moyseis Marques é uma jovem revelação do samba, mas traz dentro de si o eco, a lembrança de rodas de samba ancestrais. Ele transmite um diferente estilo de samba participando de uma geração que bebe cada vez mais nas antigas poesias e composições, criando uma levada própria e refinada.
O jovem carioca já participou do agora famoso grupo "Casuarina" e foi o fundador do grupo "Tempero Carioca" e há muito tempo é um dos destaques das casas da Lapa, região boemia e sambista do RJ e de onde vem se projetando cada vez mais.
No repertório do álbum "Fases do Coração" das 13 faixas, 8 tem participação do sambista, mostrando o seu estilo autoral. E fica claro sua admiração por Luiz Carlos da Vila na homenagem "Oitava cor" (composição de LC da Vila que o tinha como discípulo).
Atualmente um álbum já sai com a certeza de ser muito bom quando é dirigido por Paulão Sete Cordas, músico que já acompanhou artistas como Teresa Cristina e Zeca Pagodinho. E é Paulão que assina os arranjos deste excelente sambista.
No repertório ainda Delcio Carvalho, Dona Ivone Lara, Toninho Geraes, Edu Krieger, entre outros. Tudo isto embalado pela linda e rara voz do samba.
Parabéns Moyseis Marques, ouvi-lo é um dos prazeres raros.
Moyseis cantando a linda música de Paulo Cesar Pinheiro.
Neste fim de semana o samba novamente pede passagem para nos alegrar.
O ascendente e popular Diogo Nogueira apresenta seu novo CD na sexta-feira no Santana Hall, às 21h.
Conforme o post abaixo, um dos grandes destaque é a comemoração de 15 anos do “Notícias dum Brasil” com Eduardo Gudin convidando grandes intérpretes como Fabiana Cozza e Monica Salmaso. O show acontecerá no sábado e domingo no SESC Pompéia.
O SESC Pompéia ainda nos apresenta na choperia a continuação do projeto “Comunas do Samba” que vêm apresentando as principais rodas de samba de São Paulo:
Na sexta se apresenta a Comunidade do Samba da Laje que anima a região da Vila Santa Catarina todo último domingo do mês. Desde julho de 1997, as feijoadas com roda de samba são promovidas com a intenção de proporcionar um dia de alegria e descontração à comunidade, assim como divulgar o tradicional samba de roda. A maioria dos músicos está na faixa etária de 15 anos, jovens que respeitam e preservam o samba raiz, e ainda contará com a participação especial de Serginho Meriti.
No sábado é a vez do Pagode do Cafofo com a presença do Maurílio do Quinteto em Branco e Preto. A Comunidade do Pagode do Cafofo foi criada em novembro em 2002, para difundir a autenticidade do samba e valorizar os compositores locais. Os encontros são realizados na comunidade a cada primeiro e terceiro domingos do mês.
Além disto no sábado quem se apresenta no Sesc Consolação é a excelente cantora Verônica Ferriani que apresenta o show “Sambando, Sim!” a cantora passeia pelo universo do samba de raiz, mostrando clássicos do gênero de várias épocas e autores expressivos, tais como “Mulata Assanhada”(Ataulfo Alves), “Tiro ao Álvaro/Samba do Ernesto”(Adoniran Barbosa), e muitos outros.
O Sesc Pinheiro recebe o lançamento do cd em comemoração aos 100 anos de Ataulfo Alves. Com Ataulpho Alves Jr. e Milena com participações de Zezé Mota e Maria Alcina no sábado. E no domingo Fafá de Belém e Amelinha.
Depois de um merecido recesso o blog volta com tudo para o universo do samba.
Neste período de recesso fui ao RJ onde conferi duas grandes apostas do samba carioca. Na sexta-feira dia 01/01 fui ao Sacrilégio, bar que fica na tradicional rua Mem de Sá, assistir ao grupo Batuque na Cozinha e no sábado dia 02/01 fui ao lindíssimo Trapiche Gamboa conferir o Galocantô que fiz até alguns registros de vídeo conforme abaixo.
Na sexta-feira a cidade que sediará as olimpíadas estava repleta de turistas de todo o mundo e na rua Mem de Sá, que conglomera opções de samba e atrações musicais na noite carioca, o espaço era pequeno e o calor era infernal.
Cheguei no Sacrilégio para ver o grupo apadrinhado pelo Martinho da Vila se apresentar. E para ser bem honesto o Batuque na Cozinha me decepcionou. Não sei se era para atender ao público presente, mas o grupo esbanjou do lugar comum em seu repertório, tocando clássicos da MPBs muito mais para animar os gringos presentes e esquecendo que na verdade é um grupo de samba. Nada contra clássicos da MPB, mas o grupo tem que se preocupar com o quer ser e onde quer chegar, pois com esta postura acaba se tornando mais uma bandinha de boteco que toca “Flor de Lis”, Bêbado e o Equilibristas” e outras canções que caracterizam o estilo “Barzinho e violão”, sem inventividade e originalidade que se espera de um grupo novo de samba.
No sábado me deparei com o extremo oposto do indicado acima. No Trapiche Gamboa o excelente grupo Galocantô confirmou a tendência de ser um dos novos grupos de samba do RJ. Mesclando repertório próprio com canções de Paulinho da Viola, Candeia, Zé Ketti, e outros grandes nomes, o grupo colocou a massa para dançar sem perder a sua linha de atuação e entoando sambas que tocavam o coração e a alma. Esbanjando simpatia e técnica o grupo fez uma apresentação completa passando por diversas fases e estilos de samba.
Independente de minha avaliação e críticas o importante é que o samba está aí crescendo e amadurecendo. Sem saudosismo o samba se rejuvenesce e pede passagem.
Bom ano de samba para todos nós.
Ps: amanhã a agenda do mês de janeiro estará disponível com muitos sambas!
Zeca Pagodinho lança seu novo CD em São Paulo no dia 11 e 12/12 no HSBC Brasil.
Boa noite,
É amigos, ele vem aí.
Zeca Pagodinho é um dos grandes transformadores do samba contemporâneo. Ele consegue conciliar ao mesmo tempo, o antigo e o novo do samba, popularizando e comercializando-o em todos os níveis sociais e esferas. Há muitas pessoas que torcem o nariz para o sambista, por rotular seu samba apenas como pagode, como se fosse um estilo menor do samba. Acho que todos temos direito a gostar ou não de algo, mas um bom sambistas querer criticar o repertório e composições de Zeca Pagodinho é quase dar um tiro no próprio pé.
Vou me explicar melhor. Muitas pessoas gostam de Cartola, Noel Rosa, Monarco, etc, pois dizem que eles são compositores de samba de raiz, como se samba de raiz tivesse que ser antigo para ser de raiz. E o pior, como se um sambista escolhesse qual tipo de samba fará para o resto da vida. É claro que estes artistas possuem um estilo próprio, mas muitos sambistas vão do partido-alto ao samba canção, do jongo ao sincopado. Pois o rótulo é dado pelo crítico e não pela inspiração de momento do cantor.
Há quem critique o estilo de samba de Zeca, Fundo de Quintal e outros mestres, pela felicidade e partido alto que imprimem às músicas e estas canções acabam “proibidas” de círculos pseudo intelectuais, pois o velho samba já é reconhecido e é mais fácil cultuá-lo. Pois bem, uma das música que projetou o Zeca Pagodinho foi “Coração em desalinho”, que foi composta pelo sambista de raiz e mestre da Portela, Monarco. “Minha” é outra música que foi interpretada pelo cantor e fez grande sucesso, e pertence ao compositor Cartola. São muitas as composições em que Zeca readapta o samba ao seu estilo e canta antigos compositores do samba.
A questão é que Zeca é um ser orgânico, assim como o samba, e nas suas andanças pelo Rio de Janeiro, de sua procedência em Xerém, ele convive com muitos que poderão ser novos Cartolas, Noel, entre outros, mas com as características do samba atual. Por isto também grava a “nova” geração do samba, para nomear alguns nomes típicos nos CDs do Zeca: Luiz Carlos da Vila, Serginho Meriti, Mauro Diniz, etc. Cabe lembrar que Cartola, Noel, Candeia, entre outros sambistas, morreram sem a fama e o merecimento que têm hoje.
E como o samba é uma corrente, o elo continua se formando sob a batuta de um dos maiores intérpretes do Brasil, e não só de samba que é o Zeca. Aos que criticam o “jabá”, regravações exageradas e utilização da imagem do cara, também concordo, mas vivemos em um mundo capitalista e o artista muitas vezes não pode, ou não quer, se privar de ganhar bem e fazer sucesso. Como diria Tom Jobim, os críticos brasileiros sofrem da fracassomania. Como se fosse bom somente o que poucos escutam e conhecem, ou o que vem de fora do país.
O sambista é a abertura para diversos novos compositores de conseguirem uma projeção nacional, que o diga Paquera do Samba da Vela que já teve uma composição do artista, que o diga “Trio Calafrio” com a gravação de “Dona Esponja”, que diga Luiz Carlos da Vila, um dos grandes sambista contemporâneos e que vem sendo imortalizado em composições como Cabô Meu Pai e Então Leva, uma em parceria com Moacyr Luz e outra com Bira da Vila. O samba de Zeca é democrático, vem do intelectual Chico Buarque, que ele regravou com a noelesca “Rita”, ao popular “Samba para as moças” (Incandeia) do baiano Roque Ferreira.
Aos que quiserem se inteirar um pouco mais sobre a continuidade dos sambas e suas correntes, indico o excelente livro “Heranças do Samba” que conta um pouco das correntes do samba e como elas continuam sendo continuada por anônimos que trabalham como formiguinhas para manter a chama do samba acesa. O livro foi redigido por Aldir Blanc, Luiz Fernando Viana e Hugo Sukman.
Uma Prova de Amor ao Vivo MTV
Sobre o novo CD do Zeca, é mais um “caça níquel” da MTV com excelente qualidade. CD gravado em julho deste ano, no Citibank Hall, no Rio de Janeiro, e faz referência ao show do álbum anterior: Uma Prova de Amor. O disco, que corre estrada há um ano, segundo Zeca, é uma prova de amor às mulheres, ao samba e à religião. Revelando talentos escondidos pelas esquinas, botequins, vielas de favelas como Toninho Geraes, Alamir, Zé Roberto, Maurição, Serginho Meriti, Bira da Vila, entre outros. Excelente presente de natal e para amigos secretos de fim de ano.
Ana Costa, cria legítima do samba carioca se apresenta no Auditório do Ibirapuera, dia 21 de junho (domingo) para apresentação de seu segundo trabalho, o recém-lançado CD Novos Alvos.
Escutei o CD sem muita profundidade, mas parece aquém - no meu ponto de vista - do que seu primeiro trabalho "Meu carnaval". Ana Costa explora um pouco mais outros estilos de música, que não o samba, e cai um pouco na fórmula de algumas boas cantoras brasileira, fazendo um CD pop com qualidade e navegando por diversos ritmos.
Acompanham Ana no palco os músicos Leo de Freitas (teclado e acordeom), Julio Florindo (baixo), Cacá Colon (bateria), Wallace Peres (violão e cavaco), Cadu Mendonça (guitarra e violão), Bêloba (percussão) e Silvão Silva (percussão).
Quem: Ana Costa Quando: 21/06 Onde: Auditório do Ibirapuera Horário: 19h Quanto: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada)
O fim de ano em São Paulo vai desaquecendo o samba na grande cidade, mas o samba não pode parar. Hoje a dica será de uma roda de samba - se é que se pode dizer isto - que acontece no RJ, mais precisamente em Maricá, próximo a Niterói. Posso dizer por experiência própria, uma das melhores rodas de samba que já fui.
O lugar fica longe, na Estrada Velha para Maricá, mas a recompensa é garantida. O lugar possui aquela velha mística das rodas de samba de subúrbio carioca, diversas mesas dão lugar aos amantes do samba e de uma boa farra.
Ao pedir uma cerveja não se espante que o garçon volte com um isopor repleto de gelo e cervejas estupidamente geladas e coloque embaixo de sua mesa. Não se espante ao perceber a massa cantando as músicas como preces. Não se espante com o romper do dia o e samba ainda rolando.
A roda acontece há cada 14 dias, sempre aos sábados e sempre traz um grande convidado. Dizem que dos sambistas, apenas Paulinho e Zeca nunca se apresentaram no local. A última roda de samba deste ano será, por exemplo, com a Velha Guarda da Portela. `