Neste final de semana tem mais homenagens de qualidade à Noel Rosa e Adoniran. Dois artistas de peso no samba, com repertório bem distinto entre eles, mas ambos com características bem críticas no olhar à sociedade.
E desta vez, e mais uma vez, a sensacional Fabiana Cozza comanda a homenagem acompanhada da excelente Banda Mantiqueira, big band paulista, fundada na década de 1980. Com arranjos do clarinetista Nailor Proveta, repertório inclui clássicos como Saudosa Maloca, A Estrela Dalva, Samba do Arnesto e Palpite Infeliz, além composições de outros autores. Imperdível!
Ps: vale a pena para conferir também o novo Sesc Belenzinho, que dizem que ficou deveras bonito.
Quem: Fabiana Cozza e Banda Mantiqueira cantam Noel e Adoniran
Esta pérola de Noel Rosa, interpretada por Wilson das Neves na cena final do filme em homenagem ao mestre.
Noel é um dos maiores sambistas de todos os tempos, e vivendo apenas 26 anos fez uma das obras mais vastas, intensas e ricas da música brasileira. Escute Noel, procure Noel. Você irá reconhecê-lo em diversos artistas contemporâneos do Brasil.
Último Desejo (Noel Rosa)
Nosso amor que eu não esqueço E que teve seu começo Numa festa de São João Morre hoje sem foguete Sem retrato, sem bilhete Sem luar e sem violão
Tudo penso nada falo Tenho medo de chorar Nunca mais quero seu beijo Mas meu ultimo desejo Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga Pedir que você Ihe diga Se você me quer ou não Diga que você me adora Que você lamenta e chora A nossa separaçao
E as pessoas que eu detesto Diga sempre que eu não presto Que o meu lar é um botequim Que eu arruinei sua vida Que eu não mereço a comida Que você pagou prá mim
De 23 de novembro a 14 de dezembro, todas as terças-feiras acontecerá no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) uma série de shows que celebra o centenário de nascimento de Noel Rosa, “Noel Rosa, Um novo século”.
A homenagem destaca o viés contemporâneo de sua obra por meio de releituras pouco convencionais.
Com curadoria e direção artística do músico Luís Filipe de Lima, os espetáculos têm participação de Paulo Miklos, Jards Macalé, Arto Lindsay, Kassin, Moreno Veloso, Domenico Lancelotti, Pedro Sá, Benjamim Taubkin, Marina de la Riva, Quinteto em Branco e Preto e o grupo Brasøv.
Dia 30/11
Paulo Miklos e Quinteto em Branco e Preto
Músico, ator e vocalista da banda de rock Titãs, Paulo Miklos revisita a obra do Poeta da Vila com toda a sua verve. Ele divide o palco com o Quinteto em Branco e Preto, grupo que está na linha de frente da jovem geração de sambistas paulistanos. O encontro elenca alguns dos maiores sucessos de Noel e realça o caráter atemporal de sua poesia, seu humor ácido, a crítica de costumes que permanece ferina e precisa.
Dia 07/12
Marina de la Riva e Benjamim Taubkin
Marina de la Riva é cantora brasileira com notável influência da música cubana, herança de sua ascendência paterna. Ela propõe releituras instigantes da obra noelina, transitando por referências diversas. O pianista e compositor Benjamim Taubkin, um dos maiores nomes da música instrumental brasileira, também participa do programa, ora na condição de solista, ora dialogando com Marina.
Dia 14/12
Arto Lindsay, Kassin, Moreno Veloso, Domenico Lancelotti, Pedro Sá e Luís Filipe de Lima
O músico, compositor e produtor Arto Lindsay mostra sua personalíssima leitura da obra de Noel, ladeado por importantes nomes da cena pop contemporânea brasileira: Kassin, Moreno Veloso, Domenico Lancelotti (que integram, entre outras formações, a Orquestra Imperial). Os quatro são escoltados pela guitarra de Pedro Sá e o violão de sete cordas de Luís Filipe de Lima.
Existe uma eterna discussão sobre as reais origens do samba. Os partidários do samba africano, fruto dos atabaques, da religião e dos ritmos ancestrais. Há quem diga que ele nasceu na Bahia e depois espalhou pelo Brasil. Há também a possibilidade de ter acontecido após o fim da escravatura, quando a mão de obra dos escravos foi substituída nos engenhos e a população se concentrou nas grandes cidades como o RJ, de onde se tem notícia do primeiro samba “Pelo Telefone”.
Primeiro samba? Quem acredita que uma música simplesmente surja como uma vanguarda única sem ter base em nada? Quando algo deixa de ser um ritmo e passa a ser outro? Questões quase indecifráveis para tentar descobrir o ritmo que se tornou o símbolo e principal fonte cultural de um país que tem sua história ligada à música.
Independente desta discussão, fato é que o samba se espalhou pelo nosso país. Existem grupos de samba por toda parte, acredito que outros gêneros musicais também possam ser encontrados, mas sinceramente não me tocam, e não acredito que necessariamente tenham a mesma originalidade e identidade.
Ontem fui ao Samba da Vela em Santo Amaro. O samba ali é religião, é coisa séria. Nas canções, além do louvor ao próprio ritmo, estão noções de liberdade, a irreverência do ritmo, canções para exprimir o amor, mas principalmente identidade. Identidade que gera orgulho, auto estima e transformam a vida das pessoas envolvidas.
Neste mesmo dia em Santo Amaro, também se apresentou o “Pagode da 27”, grupo fundado no Grajaú, uma região carente e pobre de São Paulo. O grupo tinha a mesma identidade que o samba carrega, mas com características próprias da comunidade. Entre as canções, apresentavam-se compositores, poetas urbanos que encontram no ritmo a forma de expressar seus sentimentos. E dentro das pessoas que apresentavam o samba, sentia-se o orgulho por sua região, por sua cultura e pelo reconhecimento dos moradores vizinhos a estes compositores.
Talvez o grande barato do samba esteja aí. Sempre me perguntam se conheço muito de samba, e a resposta é sempre a mesma: não. Sim, conheço muito de Cartola, muito de João Nogueira, muito de Candeia e outros sambistas. Mas quando se analisa estes artistas, percebe-se por trás destes standarts uma comunidade, uma rede de trocas musicais infindas. Não sei explicar o porquê, mas com certeza existem artistas tão bons quanto os reconhecidos que a gente talvez nem imagine. O que transforma um artista em um grande ídolo e outro em um eterno anônimo é difícil de explicar.
Uma história diferente foi quando um instalador da Net esteve em casa e começou a cantarolar a canção “Um dia” que fez muito sucesso na voz de Sombrinha e Arlindo. Comecei a cantarolar com o instalador que ao mesmo tempo se emocionou e disse ser ele o compositor, Reinaldo, um dos compositores da canção. Diante de mim estava mais um anônimo que me emocionou diversas vez e que eu talvez nunca conheceria.
Diante de tanta história, de tanto samba, só me resta concordar com o sambista Noel Rosa, homem bem nascido e formado, que não era de comunidade nenhuma, mas que como ninguém, soube explicar onde nasce o samba. “O samba na realidade Não vem do morro, nem da cidade E quem suportar uma paixão, Sentirá que o samba então, nasce no coração.” Confira um pouco do que rolou na volta do Samba da Vela na Casa de Cultura Santo Amaro: